Entrevista com a Pesquisadora Ana Carolina Simionato Arakaki

terça-feira, 16 de junho de 2026

 

Brasília-DF
Universidade de Brasília
Entrevistadoras: Ana Luísa, Clara Letícia, Cyntia Carla, Isabele Alves e Karine Amorim

Entrevistada: Ana Carolina Simionato Arakaki

Data da entrevista: 12 de junho de 2025

Transcrição da entrevista

[Isabele Alves] : Professora e pesquisadora Ana Carolina Simionato Arakaki, muito obrigado por aceitar conversar com a gente!

Ana Carolina é professora de Biblioteconomia na FCI/UnB e docente permanente no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UFSCar. É bacharel em Biblioteconomia e em Tecnologia da Informação, mestre em Ciência da Informação pela UNESP em 2012, doutora pela UNESP em 2015, e realizou pós-doutorado em Computação na USP em 2022. Atuou como Coordenadora de Serviços Bibliográficos no Ibict, com participação em iniciativas de organização, padronização e qualificação de dados e metadados. Atualmente desenvolve e coordena projetos financiados por agências de fomento voltados à publicação, integração e uso qualificado de dados de autoridade e bibliográficos em ambientes digitais. Sua trajetória integra pesquisa, ensino e extensão.

O tema de hoje é automação em bibliotecas. Para começar, vamos à primeira pergunta:

[Isabele Alves] : Como foi sua transição para os sistemas automatizados que são utilizados hoje em dia?

[Ana Carolina Simionato Arakaki] : Quando eu me graduei, os sistemas já eram um pouco mais automatizados. Então, quando eu fiz a graduação já existia o catálogo digital e etc, por mais que naquela época a gente ainda trabalhasse com a ficha catalográfica. Também tivemos impactos, porque toda hora o layout muda, a rapidez muda, então algumas coisas que antes precisávamos agora talvez já não precisemos mais, então teve sim uma mudança. Eu sempre lidei com a tecnologia de certa forma, isso desde a graduação, então não tive tanto impacto assim.


[Cyntia Carla] : O papel do bibliotecário como mediador de informação mudou muito com o uso da automação em bibliotecas?

[Ana Carolina Simionato Arakaki] : Em grande parte das bibliotecas, se formos pensar antes da automação, o bibliotecário tinha várias atividades que se faziam com um tempo maior. Com a automação, esse tempo com certeza reduziu, mas isso não tira o mérito das práticas em si. Em todo momento, a mediação da informação é feita, seja nos catálogos ou nos serviços de referência. Então, a mediação precisa existir, a questão é que hoje a gente tem outras possibilidades para essa mediação. Eu falo muito isso em sala, tem um artigo que marcou o início das LLMs, principalmente em questão de conversação, que é justamente essa necessidade de atenção, de conversa. Então, essas questões ainda estão em falta, essa necessidade de mediação no quesito de entender as nossas necessidades, o que a máquina ainda não faz, mas creio que todo esse processo em si está evoluindo. O bibliotecário tem que se posicionar perante isso, eu vejo bastante densidade do profissional para se definir com essas novas práticas.

[Karine Amorim] : Como profissional da área, como você vê a interferência que a automação tem no processo de informação?

[Ana Carolina Simionato Arakaki] : A automação querendo ou não é uma economia de tempo, porém ao mesmo tempo não tira a necessidade do ser humano e todo o processo, talvez em algum momento futuramente talvez venha a retirar, mas não sabemos. O ponto principal é a economia, seja a de gastos monetários ou de valorização.

[Clara Letícia] : Como docente, com a automação e a autonomia que os estudantes passam a ter por meio dela, qual foi o impacto sentido na forma como eles buscam informação? Você acredita que tenha melhorado ou piorado?

[Ana Carolina Simionato Arakaki] : A questão, pelo que eu entendi, é que a gente como docente cada vez mais vai ter que trabalhar com a questão da autonomia e principalmente da consciência do aluno e do usuário, principalmente como profissional da biblioteconomia, eu acho que a gente deveria trabalhar nisso. Pensando nessa questão, nos tornamos um pouco mais preguiçosos. Porque a gente vai, por exemplo, perder tempo no Google pesquisando, sendo que a gente pode ir direto no Chat gpt? Então não tem mais esse tipo de busca, nós não perdemos mais tempo com isso. Então a questão é principalmente essa construção do senso crítico mesmo, de questionar "será que essa informação é confiável?", "será que esse direcionamento é o melhor?”. Então são essas questões que a gente precisa, enquanto docente trabalhar. Tirar proveito dessas tecnologias é inevitável, o que podemos fazer é utilizar da melhor forma possível.

[Ana Luisa] : Que tipo de cursos complementares você realizou recentemente para acompanhar as mudanças tecnológicas? Quais recomendações de cursos faria?

[Ana Carolina Simionato Arakaki] : Eu estou finalizando a graduação de Ciências de Dados, e tenho a graduação já finalizada em Biblioteconomia e Ciência da Informação, mas ao mesmo tempo foi uma escolha por curiosidade. Não quero dizer em momento algum que o bibliotecário tem que ser cientista de dados, nem ir para a área da computação ou área tecnológica, mas se vocês tiverem curiosidade, quero dizer para todos os alunos no geral, vale a pena. Eu acho que deve ter pensamento computacional, sabe? Entender de algoritmo, banco de dados e essas coisas. De verdade, eu sugiro bastante essa formação para entender, por exemplo, em catalogação trabalhamos com modelagem conceitual e como trabalhamos com modelagem conceitual se o aluno não sabe banco de dados ou o mínimo de estrutura, entidade de relacionamento, sabe? Se tivermos um material pedagógico e algumas questões que poderiam estar de alguma forma mais coerentes, isso facilitaria muito a sala de aula. Por exemplo, a FBR como que a gente aplica? Então, eu sugiro pensamento computacional porque tudo é a base de pensamento computacional, a questão de algoritmo e tentar entender como o computador faz as coisas. Pode perceber que eu não estou falando de programação, porque ela vem depois se for uma opção. O básico do pensamento computacional, para entender como as coisas podem funcionar e isso auxilia em alguns processos de lógica, vocabulário e gramática.

[Isabele Alves] : Em que aspectos você vê semelhanças entre sua atual graduação em Computação e a área de Biblioteconomia, principalmente pensando em automação? E em que aspectos você vê diferenças?

[Ana Carolina Simionato Arakaki] : A questão da automação na computação é inevitável. Tudo o que puder reduzir o problema e poder deixar isso muito mais tangível é algo muito da computação. “Eu vou trabalhar em uma base de dados” mas eu preciso estar minimamente higienizada com essa base. Então, porque não automatizar esse processo? Ao invés de ser manual, eu automatizo. Logo, eu vejo bastante essa semelhança com a biblioteconomia, cada vez mais a gente vai precisar dessas questões da automatização. Eu estou com um projeto da FACDF e o que está pegando nesse momento é justamente isso, estamos com três milhões de registros e precisamos de alguma forma higienizar eles antes de colocar na base. E vem essa questão "Dá pra fazer três milhões de registros?" se eu fizer, por exemplo, cem por semana isso vai levar uns trezentos anos, então é inviável e eu preciso aprender algumas sequências para automatizar esse processo. Agora no caso, a grande diferença entre Computação e Ciência da Informação, eu vejo que é a questão de atender as necessidades do usuário. Esse é o ponto principal. Pelo que eu já trabalhei com computação, se o sistema está funcionando ou não, a computação não vai ligar. A ciência da informação vem justamente para isso, para proporcionar a experiência do usuário da melhor forma. Entender a necessidade, o que o usuário está precisando, no que ele pode pensar, no que o sistema pode sugerir. Então, o maior exemplo que eu posso dar para vocês, é a questão do catálogo. O catálogo das bibliotecas da forma que estão hoje não atendem os usuários, que estão cada vez mais tecnológicos. O catálogo, por exemplo, de algumas bibliotecas está todo travado, uma aparência da década de 90. Então, a questão do usuário poderia ser muito mais valorizada dentro da computação, mas que bom que sobra campo para nós podermos trabalhar.

[Isabele Alves] : Ótimo professora. Eu pensei nessa pergunta quando a senhora falou sobre a questão da área de tecnologia e computação no geral, ser uma área mais prática. Então alinhada a biblioteconomia, tem que ter esse cuidado, não é?

[Ana Carolina Simionato Arakaki] : Precisa. E no caso as vezes colocamos a biblioteconomia como uma área técnica, mas ela é tudo menos técnica. Ela pode ser técnica em alguns cenários, mas ela precisa olhar para essa abstração, entender a biblioteconomia. A questão epistemológica, das atividades de como gerar a melhor forma de conhecimento, como atender da melhor forma o usuário. Enfim, incrementar cada vez mais, sabe? Então eu vejo muito isso, mais do que a prática somente. Essa questão do raciocínio, de entender e, principalmente, melhorar a área. Essa proatividade, a verdade é essa.

[Ana Luisa] : O que você considera importante na atuação bibliotecária que ainda não pode ser automatizado?

[Ana Carolina Simionato Arakaki] : Eu acho que a relação humana. Toda essa parte de necessidade, o ser humano precisa desse contato e dessa atenção, e não vejo isso com a automatização. Até mesmo porque de alguma forma, essa questão de "Ah vou fazer a mediação" é muito mais gostoso ter alguém te indicando coisas e conversando as melhores possibilidades de trabalho e texto do que a máquina. A máquina vai te indicar algo e pronto acabou, semana que vem você esquece. Mas o ser humano tem essa questão sensorial.

[Karine Amorim] : Qual sua visão para o futuro do processo de automação? Considerando a relação entre Tecnologia e Ciência da Informação, você acredita que, com a Inteligência Artificial (IA) cada vez mais presente, haverá grandes mudanças na atuação bibliotecária?

[Ana Carolina Simionato Arakaki] : Eu acho que na verdade precisa viu gente. A gente precisa ter o cuidado com os nossos acervos, mas ao mesmo tempo com a demanda informacional que temos na maneira digital. Acho que a principal questão, é identificar essas práticas, justamente em campos de automação. Então, enquanto a gente não abranger a questão da tecnologia de outras formas e dos acervos digitais também, a gente vai dar brecha para outras ciências, como a Ciência de Dados para elas de fato se construírem. Então coisas que poderiam ser da nossa área de ciências da informação a gente está deixando que outras Ciências levem. Seja em campos de estudo e áreas de pesquisa. Então, correr atrás para defender a nossa área é importante.


[Clara Letícia] : O que você sugere para os estudantes que estão ou vão se formar conseguirem se manter atualizados e acompanhar as transformações da área?

[Ana Carolina Simionato Arakaki] : Eu acho que a primeira coisa é: ler bastante. Temos diversas fontes de informação dentro da área que poderiam ser mais exploradas pelos alunos. Querendo eu não, acredito que necessidades básicas estão em falta, as questões de leitura, de busca. Às vezes a gente passa um site e o aluno não consegue procurar. Então, porque assim, é uma competência. Eu não consigo, assim como docente, fazer isso. É o despertar do aluno como curiosidade, sabe?

[Isabele Alves] : Bom, foi isso professora. Muito obrigada por ter cedido seu tempo para conversar com a gente. Gostamos muito e foram ótimas respostas. Eu acho que precisamos sim pensar em automação no trabalho e automação com IA porque o futuro está aí e não tem como fugir, mas também sem esquecer o lado social e humano porque essa é a essência da nossa área.

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